28/05/2011

Loiça

Do cimo do coqueiro o macaco malandro atirou um fruto à cabeça de outro símio que descansava sentado, lá em baixo, encostado ao tronco. “Obrigado por me criticares”, disse-lhe o segundo macaco, depois de abrir o coco e saborear a sua água…

Tive oportunidade de visitar a mesquita de Lisboa, há uns anos atrás, durante uma extraordinária aventura com os meus exploradores pela capital.
O guia que nos acompanhou num breve périplo pelo edifício, a certa altura referiu que ali "não se lava a loiça num altar".
A minha miudagem percebeu a alfinetada e os que estavam cá mais atrás não se coibiram de me manifestar o seu protesto: " o tipo está a dizer mal da nossa Igreja!"
Sem fazer muito caso, aproveitámos, nós os animadores adultos, para explicar àqueles rapazes e raparigas o conceito de tolerância religiosa e a sua importância.
Hoje, sempre que lavo a loiça ou a meto na máquina, lembro-me desse episódio e agradeço ter assim dado conta de como esta aborrecida tarefa doméstica é afinal uma extraordinária oportunidade de me aproximar do Deus em que acredito.

20/05/2011

Confiar

Chegamos ao fim do dia cansados da labuta, mas sobretudo da incerteza no dia de amanhã.
O entusiasmo é pouco e o pouco que não é perturba.
Olhamos a casa que nos acolhe, os objectos que nos prendem, a janela fechada e o degrau no inicio da escada. Parece que a luz é mais fraca e o espaço mais apertado.
A Juliana desequilibra-se em cima do cesto da roupa suja e agarra-se desesperadamente ao meu pescoço.
De pé na cama, já esquecida do episódio, debruça-se sobre a cabeceira e escolhe um dos cartões com as pequenas orações que lemos ao deitar. Reza assim, rezamos assim:
“Protegidos pela bondade,
Esperamos confiantes
Por aquilo que o futuro nos der.
Deus está connosco,
De manhã e de noite
E muito certamente
Em cada novo dia.
Ámen.”
Pode não ser sinal de coisa nenhuma, mas é um bálsamo para a alma.
Sinal seguro é a marca das unhas da minha filha no meu pescoço. Faz-me perceber que também eu hei-de ter alguém para me amparar no desequilíbrio, protegido pela bondade, protegido pelo amor.

03/05/2011

João

Li há pouco uma belíssima entrevista dada por um meu amigo a propósito da sua eleição para o Comité Mundial do Escutismo.
  
É uma pessoa extraordinária e é singular a forma como chegou a este cargo. Não pelo resultado de movimentações políticas, da negociação de entendimentos, mas através da constante defesa daquilo em que acredita, de uma forma prática mas pensada, amiga mas consequente. Muito para além da retórica dos discursos, bem junto dos jovens e dos líderes que actuam no terreno.
Aliando as suas excepcionais capacidades pessoais à fé e ao amor que tem pelo movimento e pelas pessoas, chega a este alto cargo sendo um conhecedor profundo da realidade das unidades, das dificuldades das associações, das ânsias dos rapazes e raparigas.

E esta é uma enorme mais-valia na acção de qualquer dirigente de topo. Uma cena, como diria a malta nova que tanto o faz correr, que dificilmente acontecerá, creio, com os nossos governantes. Algo, como ele próprio falaria, muito à frente!
Talvez por isso não me tenha decidido pouco depois, quando respondia à pergunta de uma sondagem telefónica sobre qual o politico em que mais confio para próximo primeiro-ministro, nem por José, nem por Pedro. Ocorreu-me sim este nome: João.