15/01/2010

Momento

O carro afasta-se devagar e deito o olhar para além da vedação da escola através do vidro do banco de trás. O Rodrigo corre depressa, o corpo inclinado para a frente, apesar da mochila cheia de livros e cadernos o querer contrariar. A dado passo ele levanta a cabeça na direcção da rua e os nossos olhares cruzam-se, assim, ambos em movimento.
As lágrimas afloram-me aos olhos como se pretendessem libertar a felicidade tamanha que me enche.
Naquele instante percebo que a minha vida é pouco mais do que o amor que tenho ao meu filho, que tenho à minha família. Esse "pouco mais" é muito, claro, mas proporcionalmente pouco. No seu todo é muito mais do que quer que fosse antes de os ter!
Enquanto escrevo faço uma prece para que fugidio seja apenas aquele instante de há pouco e não essa felicidade que acabou por se desprender nestas linhas.

09/01/2010

Poda

Ser pai é maravilhoso. Esta primeira afirmação tem de encetar todo o texto que pretenda abordar uma qualquer dificuldade na educação de um filho. Porquê? Porque é verdade.
Muito bem. Mas, por vezes, ser pai é complicado. Educar não é uma tarefa linear, com cores definidas. Há zonas de tonalidades indecisas, zonas de certezas desfeitas. Acontece amiúde o que julgo melhor para a educação do meu filho deixar-me um nó na garganta de imediato ou um peso no peito ao deitar.
Tenho receio de estar a podar demais o meu filho. Tenho receio de que, de tanto o corrigir, de tanto o chamar à atenção, o esteja a cercear na sua livre vontade. Tenho receio de que o esteja a formatar de tal forma que a pouco e pouco ele possa perder naturalidade e possa vir a agir apenas em função do que eu e sua mãe possamos ou não achar correcto ou apropriado.
Seria fácil resolver esta preocupação se bastasse inverter a situação. Mas sinto que não é assim tão simples. Se não houver poda de todo, não haverá uma boa árvore.