10/11/2009

Tabuleiro

Os mais próximos, sobretudo no tempo, sabem do meu gosto por jogos de tabuleiro. Depois da caixa é altura de falar do que chega à mesa: o tabuleiro.
Jogo de tabuleiro sem tabuleiro parece que não é bem a mesma coisa! Talvez porque no meu tempo de miúdo todos os jogos de tabuleiro tinham efectivamente tabuleiro. E ainda que este “todos” sejam só dois ou três títulos, a verdade é que esse meu universo de então foi suficiente para deixar a semente que agora germina, muito por culpa, claro, dos pedaços de tabuleiro unidos por uma espécie de gaze amarelada pelo uso.
Só o acto de desdobrar um tabuleiro é já algo de mágico. A mesa parece que ganha vida e à falta de quadros nas paredes quero achar uma obra de arte na mesa.
Da arte do tabuleiro resulta a segunda impressão que tenho dum jogo, depois daquela que se abre com a caixa. Acredito que haverá até quem adquira determinado jogo mais pelo tabuleiro do que pelo jogo em si, ou, no limite, mesmo só pelo tabuleiro!
O meu filho de seis anos mexe já nos jogos, mas quando se trata de abrir e fechar tabuleiros sou eu que intervenho. É a maior fragilidade dos ditos. Embora os riscos maiores que estes correm sejam o de levarem um banho de cerveja ou de licor Beirão num movimento de braço incauto…
Naquele pedaço de cartão impresso há todo um mundo para descobrir. De repente sinto-me viajar para outros espaços, para outros tempos: a América dos comboios, a Europa dos impérios, a Roma dos coliseus, as rotas do comércio, as ilhas imaginárias…
Cada vez que estendo um tabuleiro inicio uma nova história que aquela particular experiência de jogo vai contar.
É agora altura de adornar a coisa. Saltam da caixa maços de cartas, meia dúzia de cartões, cubos de madeira, mais cubos de madeira, peões, moedas e notas…
Durante uma hora, uma hora e meia, aquele vai ser o centro da nossa atenção. Mesmo visto ao contrário, ou de lado, o mundo que ali se desenha é sempre outro e há nele o mistério do que é novo e o desafio de cada jogada que se adivinha.
A caixa, a tal que sempre me fascina, sai da ribalta e é colocada literalmente de lado ou, escasseando o espaço na mesa, relegada para o chão.
O chão que acolhe as nossas brincadeiras quando crianças, dificilmente serve hoje para estender um tabuleiro. Este pede uma mesa.
A mesa é a amizade maior do tabuleiro, mas desconfio que mantêm uma relação com altos e baixos, pelo menos a ver pelo que se passa lá em casa! Há ocasiões em que a mesa é grande demais, outras em que é pequena. Talvez o problema nem seja das mesas nem dos tabuleiros, mas sim do número de jogadores!
Mesa pensada para comensais nem sempre responde à idiossincrasia dos “gamers” e em raras oportunidades convém ao tamanho e organização dos tabuleiros.
Talvez por isso também, alguns jogos surjam em proposta de puro “tile placement” ou com pequenos tabuleiros individuais, quais ilhas idealmente dispersadas na oceânica mesa. São soluções engenhosas, que têm o seu mérito. E que terão evitado que, num ataque de desespero, algumas mesas tenham sido serradas a meio…
Alguns tabuleiros respondem também a este desafio desenhando-se simetricamente em relação aos seus quatro lados. Os que não o fazem têm sempre um ou dois voluntários, jogadores mais experimentados ou tão-somente simpáticos e atenciosos anfitriões, que aceitam vê-lo invertido.
Poderia fazer, far-se-ão por certo, muitas efabulações sobre os diferentes tipos de tabuleiro. Poderia dividi-los num leque de categorias surpreendente, pintá-los de mil adjectivos, dobrá-los em infindáveis apreciações. Fico-me, em nota final, com aquela classificação que mais mexe comigo: a divisão entre tabuleiros, ou soluções de tabuleiro, que nos obrigam a levantar o rabo das cadeiras e os que permitem que permaneçamos sentadinhos, no nosso tão estratégico quanto acolhedor canto, toda a jogatina!
Convenhamos que um jogo com o tradicional tabuleiro traz consigo uma poesia inusitada.

05/11/2009

Avó

"Uma avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem "Despacha-te!". Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morreram mais vezes do que nós. Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão."

Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo.

Eu não diria melhor! Mas diria muito, muito mais, se pensasse na minha avó Rosa...

03/11/2009

Fechadura

Contava há dias um colega de trabalho uma deliciosa história da sua infância na zona urbana de Lisboa.
O seu grupo de amigos, à boleia das cadernetas dos cromos da bola, que davam a conhecer o historial dos grandes clubes de futebol, decidiu fundar um clube. Daí a 30 ou 40 anos seria um grande clube e viria também nas cadernetas e jornais associado aos seus nomes!
Uma equipa precisa de campo para jogar, claro. Depressa iniciaram uma recolha de fundos junto dos transeuntes que rendeu uns poucos de escudos. Escolheram depois um terreno espaçoso e depressa chegaram à conclusão que teriam de dar as melhores condições aos atletas. Surgiu a ideia de construir um balneário.
Na altura, meados de 80, já se percebia que teriam de ser tomados alguns cuidados de forma a preservar as futuras instalações. Havia pois que cuidar de trancar o balneário à chave.
Após uma rápida assembleia foi tomada a primeira e última decisão da fundadora direcção do clube: os fundos angariados foram investidos na compra duma fechadura!
O clube não tem hoje qualquer passivo nem activo, o terreno de jogo foi ocupado pela CRIL, a fechadura servirá ainda um qualquer galinheiro…
Sobra uma história deliciosa e resistirão uns poucos de homens crescidos que sentados em frente aos seus computadores continuam a sonhar com grandes realizações que o dia-a-dia parece adiar.
Mas há com certeza um pequeno Bernardo à espera, no fim de cada um destes dias, que o seu papá tenha disponibilidade para esse feito de sempre e sobretudo extraordinário nos nossos dias: brincar.