Filipa
É maravilhoso ter uma daquelas amizades que se actualiza de tempos a tempos com uma frescura insuspeita. Uma ligação com alguém que vemos uma vez de 4 em 4 anos mas com quem se fala como se acabássemos de viver um dia de trabalho conjunto ou uma tarde de praia.
Aqueles amigos que temos lá longe, que vemos sabe-se lá quando, também são importantes. Porque sabemos que estão lá, de tal maneira que, uma ou outra vez, até os incluímos nas nossas orações. E porque inevitavelmente nos animam com a simples presença ou o inesperado “olá” telefónico ou internético. Porque nos trazem um sorriso interior só de recordar.
E quando nos reencontramos obrigam-nos a algo inesperado: temos de rebobinar o filme da nossa vida. E isso é um exercício que dificilmente fazemos com os amigos que estamos sempre a ver. E é assim que nos damos a falar de coisas nossas de forma mais profunda com pessoas que vemos pouco. E fazemo-lo de forma mais livre porque não temos os laços da proximidade a atrapalhar.
Amigos à distância implicam trabalho, implicam memórias, cartas ou e-mails longos... E às vezes almoços, combinados ou de surpresa numa ocasião fugidia.
Férias
Há um tempo de vida em que o tempo tem verdadeira vida.
São dias novinhos em folha que estreamos com um sereno entusiasmo. Afigura-se-nos possivel fazer tudo o que temos vindo a adiar e damos por nós, não raras vezes, a fazer um quase nada que, afinal, é um outro tudo. Como a sestinha após o almoço, o passeio no mesmo final de tarde que não ousamos em tempo de trabalho ou o filme que a TV passa fora de horas.
Não sei se o tempo de férias resolve o tal cansaço que parece aumentar sempre exponencialmente nos ultimos dias de trabalho. Nem sei se voltamos a esse trabalho com mais ou com menos vontade. Sei apenas que nesses dias as espias não estão tão esticadas, nem os nós tão apertados.
Vestimos uns calções e uma t-shirt e parece que somos finalmente livres. E gozamos a nossa casa como se fosse o melhor lugar do mundo para se estar, porque somos donos do espaço e do tempo. Ou quase.
Paula
“Olá!
Não sei se sabem que eu andava a tentar mudar de profissão. Pois é!
Fui fazer umas audições a Londres, Glasgow, Amsterdão, Roterdão e Utrecht para ir estudar canto e...
ENTREI!!!
Vou para o Conservatório de Roterdão. As aulas começam em Setembro.
Torçam por mim!”
A Paula decidiu deixar o seu cómodo emprego numa empresa pública, dizer adeus a Lisboa e à família e partir. Partir em busca do seu sonho, da sua realização pessoal. Para alguns poderá parecer uma loucura ou um devaneio, para outros, um acto de coragem ou o cumprimento dum destino.
Durante 3 anos, mês a mês, a Paula foi contando aos amigos os seus dias, sempre tão novos e tão cheios. Agora vai continuar lá por fora, a cantar. A fazer de cada dia um dia diferente, por muito igual que seja ao anterior.
Admiro muito a Paula. Pelo que é e sobretudo pelo que quer ser. Ou melhor, por querer ser.