Valente
- “És um valente!”
Valente. Deixei de ouvir esta palavra, que a minha avó
associava, não à força, mas à determinação, à coragem de fazer coisas, de levar
a vida para a frente.
E é uma palavra que deveríamos recuperar, porque vivemos hoje tempos em que são precisas
pessoas valentes. Precisas e preciosas!
São aquelas pessoas que arriscam sair do seu telheiro para
caminhar à chuva, que põem amor no que fazem, seja trabalho ou divertimento,
que ousam aproximar-se de quem respeitam e que merecem a admiração daqueles de
quem se aproximam.
Conheço, mal, confesso, uma pessoa que todos os dias procura
ser melhor filha, melhor educadora, mais
amiga e mais mulher. Uma pessoa que ajuda mais do que imagina, que está mais
presente do que notará, que tem mais fé do que supõe!
É uma pessoa de hoje. Valente. Quantas pessoas conheçemos assim?
Ramos
Domingo de ramos é um domingo muito especial. É um daqueles domingos que começa no sábado! Em criança, o meu pai fazia-me umas cruzes fantásticas em cana, que revestia com alecrim e ramos de oliveira. Uma circunferência em salgueiro ou outro arbusto mais maleável ornava a cruz de tal forma que esta quase se esquecia.
Percebo hoje o extraordinário paralelismo dessa cruz, assim adivinhada sob todos aqueles ramos e folhas, com este domingo feliz em início de semana santa e com aquela entrada messiânica de Jesus em Jerusalém em vésperas de via-sacra.
Naquela minha meninice o domingo de ramos era tão especial porque ninguém tinha uma cruz como a minha ou a do meu irmão. À chegada ao adro da igreja era ver o que os outros meninos levavam e erguer com orgulho aquando da bênção dos ramos aquele maravilhoso trabalho do meu pai.
Tenho pena que se tenha perdido esta tradição. Entristece-me que a Igreja desbarate assim uma oportunidade de chegar de uma forma viva e jovial às crianças e perca a ocasião de juntar pais e filhos num alegre trabalho de casa catequético.
Este domingo de ramos fiz uma pequena cruz à Juliana. Com ramos de mimosa, que colhemos na mata no sábado, revestidos com alecrim que em boa hora a mãe decidiu transplantar para o nosso descuidado jardim.
Este domingo de ramos a Juliana ergueu a sua cruz enquanto eu, não menos orgulhoso, a elevava a ela nos meus ombros. E dou graças pela felicidade que é em dias como estes, unidos nesta fé viva, conseguir juntar os meus pais e os meus filhos. É sempre assim, quando a felicidade é maior do que a saudade!