Setembro
Nas minhas infância e adolescência o dia 1 de setembro era o dia mais feliz do ano, superando o Natal e o dia de aniversário. A 1 de setembro começavam os 15 dias na praia!
Não íamos de férias, íamos
“15 dias para a Figueira”! Era essa a designação própria daquela primeira quinzena
de setembro passada na praia de Buarcos. Dias mágicos, vividos ao minuto, desde
o ir ao pão pela manhãzinha até às brincadeiras na areia já depois do Sol se
ter ido embora.
Ficávamos numa casa alugada, a mesma de sempre, ainda que me
recorde de curtas estadias em outras duas e desde o cheiro característico até
às sempre hospitaleiras formigas tudo tinha um encanto especial. Como se de um
conto de fadas se tratasse!
Carregávamos batatas e legumes do quintal, vinho e cervejas
em grade, malas, caixotes de papelão e até uma botija de gás. E toalhas e lençóis.
A chuva, que sempre aparecia, e os nevoeiros ajudavam a
decidir por uma manhã no mercado, entre o peixe para a caldeirada e uma pequena
camioneta de plástico. Ou por um passeio pelas muralhas até aos barcos e redes
que os pescadores cuidavam.
As noites, já frescas, levavam-nos a um passeio que, com
sorte, poderia passar pelos carros de choque ou pelo Caras Direitas onde
admirávamos os cartazes dos filmes e comprávamos uma medida de pevides que se
esgotava no regresso a casa.
O grupo era o mesmo todos os anos. Como se as famílias lá da
terra decidissem fazer turnos de praia entre julho e setembro. Com o passar dos
anos as crianças mais velhas do grupo saíam já sem os pais e nós os mais novos íamos
com eles como garantia de um regresso não tardio.
As noites iam esticando e o dinheirito curto tinha que dar
para uma ou duas fichas nos carrinhos de choque ou um bilhete para ver andar à
porrada o Bud Spencer e o Terence Hill, que parecia também irem a Buarcos todos
os setembros…
Quando no fim-de-semana vinham os primos arrumávamo-nos em divãs
ou colchões no chão para o sono que um passeio até à Figueira da Foz encurtava,
avenida marginal acima até à gelataria, a Emanha única, à cervejaria Sagres ou às
máquinas das ruas do casino.
Vivíamos em pleno, sem contar os dias, revolvendo areia,
enfrentando as ondas e batendo trunfos.
E no fim o verão não terminava ainda. As aulas nunca começavam
logo e perdurava ainda por uns dias nos meus ouvidos aquele pregão maravilhoso:
“É fruta ó chocolate”!

3 Comments:
Muito bom... :) não sou desses tempos mas já ouvi muitas histórias dos verões na figueira da foz parecidas... :)
Parabéns pelo texto.
Rafaela
Achei-te! :) que bom! Saudades grandes. beijo
Ufffff...estava a ver que nunca mais voltavas!!! :-)
Mais um texto que adorei ler e que me trouxe à memória os verões da minha infância noutra "Figueira". Um abraço cheio de carinho e muitas saudades
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