PI
Há pessoas que não precisamos conhecer bem para gostar delas quase de imediato.
Eu não conhecia onde vivia o Inácio, onde trabalhava ou outros factos que a maioria das pessoas sabe sobre qualquer um. Mas sabia que gostava dele, da sua presença serena, bem disposta na hora de rir, séria na hora de jogar.
Chorei-o na sua partida de uma forma inédita. Porque em geral não é a morte que me dói mas sim a ausência de quem amo. Com a partida do Inácio (e como a palavra partida pode aqui assumir um duplo sentido!) senti na hora a falta do que aí vinha, senti a perda do futuro. E isso assusta. Pelo menos a mim, assustou-me.
Dou graças por o ter conhecido, por termos partilhado um pouco do que cada um de nós é e foi em qualquer uma daquelas maravilhosas ocasiões em que nos encontrámos para lançar um dado e beber uma cerveja.
Numa destas noites não estava fácil sair para ir ter com os meus amigos. Tinha em cima o cansaço duma semana de árduo trabalho e duma viagem de três horas, o desejo de derreter mais uma horita com os meus filhos e os olhos suplicantes da minha esposa para que ficasse em casa.
“Mas o Inácio está cá!”, respondi eu ao apelo que ela não me fez. E fui.
E vou. Porque o Inácio está cá.
Setembro
Nas minhas infância e adolescência o dia 1 de setembro era o
dia mais feliz do ano, superando o Natal e o dia de aniversário. A 1 de setembro
começavam os 15 dias na praia!
Não íamos de férias, íamos
“15 dias para a Figueira”! Era essa a designação própria daquela primeira quinzena
de setembro passada na praia de Buarcos. Dias mágicos, vividos ao minuto, desde
o ir ao pão pela manhãzinha até às brincadeiras na areia já depois do Sol se
ter ido embora.
Ficávamos numa casa alugada, a mesma de sempre, ainda que me
recorde de curtas estadias em outras duas e desde o cheiro característico até
às sempre hospitaleiras formigas tudo tinha um encanto especial. Como se de um
conto de fadas se tratasse!
Carregávamos batatas e legumes do quintal, vinho e cervejas
em grade, malas, caixotes de papelão e até uma botija de gás. E toalhas e lençóis.
A chuva, que sempre aparecia, e os nevoeiros ajudavam a
decidir por uma manhã no mercado, entre o peixe para a caldeirada e uma pequena
camioneta de plástico. Ou por um passeio pelas muralhas até aos barcos e redes
que os pescadores cuidavam.
As noites, já frescas, levavam-nos a um passeio que, com
sorte, poderia passar pelos carros de choque ou pelo Caras Direitas onde
admirávamos os cartazes dos filmes e comprávamos uma medida de pevides que se
esgotava no regresso a casa.
O grupo era o mesmo todos os anos. Como se as famílias lá da
terra decidissem fazer turnos de praia entre julho e setembro. Com o passar dos
anos as crianças mais velhas do grupo saíam já sem os pais e nós os mais novos íamos
com eles como garantia de um regresso não tardio.
As noites iam esticando e o dinheirito curto tinha que dar
para uma ou duas fichas nos carrinhos de choque ou um bilhete para ver andar à
porrada o Bud Spencer e o Terence Hill, que parecia também irem a Buarcos todos
os setembros…
Quando no fim-de-semana vinham os primos arrumávamo-nos em divãs
ou colchões no chão para o sono que um passeio até à Figueira da Foz encurtava,
avenida marginal acima até à gelataria, a Emanha única, à cervejaria Sagres ou às
máquinas das ruas do casino.
Vivíamos em pleno, sem contar os dias, revolvendo areia,
enfrentando as ondas e batendo trunfos.
E no fim o verão não terminava ainda. As aulas nunca começavam
logo e perdurava ainda por uns dias nos meus ouvidos aquele pregão maravilhoso:
“É fruta ó chocolate”!