21/09/2012

PI

Há pessoas que não precisamos conhecer bem para gostar delas quase de imediato.
Eu não conhecia onde vivia o Inácio, onde trabalhava ou outros factos que a maioria das pessoas sabe sobre qualquer um. Mas sabia que gostava dele, da sua presença serena, bem disposta na hora de rir, séria na hora de jogar.
Chorei-o na sua partida de uma forma inédita. Porque em geral não é a morte que me dói mas sim a ausência de quem amo. Com a partida do Inácio (e como a palavra partida pode aqui assumir um duplo sentido!) senti na hora a falta do que aí vinha, senti a perda do futuro. E isso assusta. Pelo menos a mim, assustou-me.
Dou graças por o ter conhecido, por termos partilhado um pouco do que cada um de nós é e foi em qualquer uma daquelas maravilhosas ocasiões em que nos encontrámos para lançar um dado e beber uma cerveja.
Numa destas noites não estava fácil sair para ir ter com os meus amigos. Tinha em cima o cansaço duma semana de árduo trabalho e duma viagem de três horas, o desejo de derreter mais uma horita com os meus filhos e os olhos suplicantes da minha esposa para que ficasse em casa.
“Mas o Inácio está cá!”, respondi eu ao apelo que ela não me fez. E fui.
E vou. Porque o Inácio está cá.

04/09/2012

Setembro

Nas minhas infância e adolescência o dia 1 de setembro era o dia mais feliz do ano, superando o Natal e o dia de aniversário. A 1 de setembro começavam os 15 dias na praia!

 Não íamos de férias, íamos “15 dias para a Figueira”! Era essa a designação própria daquela primeira quinzena de setembro passada na praia de Buarcos. Dias mágicos, vividos ao minuto, desde o ir ao pão pela manhãzinha até às brincadeiras na areia já depois do Sol se ter ido embora.

Ficávamos numa casa alugada, a mesma de sempre, ainda que me recorde de curtas estadias em outras duas e desde o cheiro característico até às sempre hospitaleiras formigas tudo tinha um encanto especial. Como se de um conto de fadas se tratasse!

Carregávamos batatas e legumes do quintal, vinho e cervejas em grade, malas, caixotes de papelão e até uma botija de gás. E toalhas e lençóis.

A chuva, que sempre aparecia, e os nevoeiros ajudavam a decidir por uma manhã no mercado, entre o peixe para a caldeirada e uma pequena camioneta de plástico. Ou por um passeio pelas muralhas até aos barcos e redes que os pescadores cuidavam.

As noites, já frescas, levavam-nos a um passeio que, com sorte, poderia passar pelos carros de choque ou pelo Caras Direitas onde admirávamos os cartazes dos filmes e comprávamos uma medida de pevides que se esgotava no regresso a casa.

O grupo era o mesmo todos os anos. Como se as famílias lá da terra decidissem fazer turnos de praia entre julho e setembro. Com o passar dos anos as crianças mais velhas do grupo saíam já sem os pais e nós os mais novos íamos com eles como garantia de um regresso não tardio.

As noites iam esticando e o dinheirito curto tinha que dar para uma ou duas fichas nos carrinhos de choque ou um bilhete para ver andar à porrada o Bud Spencer e o Terence Hill, que parecia também irem a Buarcos todos os setembros…

Quando no fim-de-semana vinham os primos arrumávamo-nos em divãs ou colchões no chão para o sono que um passeio até à Figueira da Foz encurtava, avenida marginal acima até à gelataria, a Emanha única, à cervejaria Sagres ou às máquinas das ruas do casino.

Vivíamos em pleno, sem contar os dias, revolvendo areia, enfrentando as ondas e batendo trunfos.

E no fim o verão não terminava ainda. As aulas nunca começavam logo e perdurava ainda por uns dias nos meus ouvidos aquele pregão maravilhoso: “É fruta ó chocolate”!