Esperas
Acontece-nos com alguma frequência ter de consumir algum do nosso tempo em esperas não totalmente programadas. É a ida às finanças, a substituição de um pneu na oficina, a consulta no dentista…
Nessas ocasiões socorremo-nos da revista com dois meses de publicação que está sobre o balcão ou ocupamos o tempo a… pensar!
Admirável espera esta que me leva a pensar!
Livre das amarras do tempo e da pressão dos assuntos habituais, de casa ou do trabalho, o meu pensamento deixa-se ocupar pelos sonhos que espreitam uma aberta para poderem assaltar a mente. De repente dou comigo a anotar ideias novas ou a espevitar outras que já haviam surgido anteriormente.
A sala de espera transforma-se num gabinete de projectos e, no ar ou num qualquer pedaço de papel que se apresente à liça, rabisco uma série de notas que, em breve ou naquele nunca sonhador, poderão tornar-se preciosas para ajudar a concretizar algo novo ou estender esse desejo.
A espera dificilmente será uma perda de tempo se a transformarmos numa milagrosa oportunidade de ter tempo.
Fracasso
Ouvi há dias alguém defender o conceito de cultura de fracasso em oposição à cultura de sucesso que hoje reina. A ideia não é aplaudir o desaire, a incompetência ou a má vontade, mas aceitar aquele como algo natural, como parte do caminho, e estas como oportunidades de melhoria, de crescimento.
A nossa selecção de futebol saiu do campeonato do mundo após derrota com a Espanha. Pode discutir-se tudo: táctica, desempenho individual, sorte… Mas deve-se olhar os factos e tentar perceber se este revés faz parte de um processo que se chama competição, com oponentes tão válidos quanto nós, ou se resulta dum desbragado e injustificado desperdício de energia, tempo e dinheiro.
Sei que a palavra assusta, que a sua conotação é negativa. Mas essa é apenas mais uma razão para se fazer um esforço colectivo no sentido de se alterar a maneira como culturalmente olhamos o fracasso.
Dir-me-ão que é ténue a linha que separa o insucesso assim entendido e a cómoda resignação. Eu temo que seja bem mais frágil a actual fronteira entre o fracasso e a depressão.