21
É normal sentir algum desconforto mental quando entro ao trabalho às 9 da noite. Não é um horário natural, sobretudo para quem viveu anos a terminar o seu labor por essa altura do dia. Quando tal acontece ao domingo o mau humor é inevitável. Insinua-se logo após o almoço e acentua-se ao longo da tarde naquele meu jeito “o que é tu tens? – não tenho nada!”
Ontem vivi um desses dias e só hoje percebi que o negrume se agravou com o que se passou pela manhã. São por vezes pequenas coisas que vão nos incomodando, que se atravessam numa frase dita ou escutada, aparecem do nada e saem para o tudo. E esse “tudo” absorve-nos e enche-nos sem deixar espaço para aqueles outros nadas que são bem mais do que isso.
A uma ida para o banco do meu craque, contrapõem-se um bom raciocínio matemático da minha pequena sonhadora umas horas mais tarde. Mas ainda estou eu também sentado no banco deste dia quando 1/4 ali se junta entusiasticamente à unidade.
É assim com os meus filhos e será tanta vez assim no trabalho ou com os amigos! Detemo-nos em algo que nos incomoda, que nos atira para a penumbra e somos incapazes de reparar num teimoso raio de sol, na almofada suave que procura o nosso rosto. Sejam aqueles um comentário desagradável do patrão ou a insensibilidade dum companheiro de jogo e estes o sorriso aberto dum colaborador ou um comentário oportuno a um nosso “post” no facebook.
Depois de mais um turno de 8 horas e um sono reparador percebo que a soma dos tais felizes 5/4 com as amargas 21 horas dá resultado zero. E isso já é bom. Obrigado filhota!
Piscina
Quando chego, em geral, já estão na água. Tento descortiná-los sob as toucas reluzentes e sigo-os com o olhar. Quando finalmente se apercebem da minha presença ergo a mão e, de polegar levantado, dou-lhes um sinal enérgico de aprovação. Repito-o uma e outra vez, por trás do vidro cada vez mais embaciado.
É assim que assisto às aulas de natação que os meus filhos têm com os outros colegas de escola. Tanto para ele como para ela as idas à piscina são ocasiões de ansiedade, de receios vários, sei-o. Por isso ali estou, de sorriso na cara e polegar no ar a cada salto para a água, a cada par de braçadas, seja aquele o mais desastrado ou estas as mais lentas.
Por saber cada um deles em luta para superar as suas naturais dificuldades, não ouso uma palavra ou um gesto de correção. Só incentivos, como se cada minuto naquela piscina fosse de uma dimensão olímpica!
Em tantas mais ocasiões, porque cego das suas limitações mais do que espectáveis, olho-os à luz do meu pensar, meço-os com a bitola dos meus registos e esqueço-me de que são crianças. A minha atenção é fugidia e o meu aplauso, quando sai, é frouxo.
Deveria olhar os meus filhos mais amiúde como o faço aquando das idas à piscina. Por vezes vemos melhor através de vidros embaçados!
PI
Há pessoas que não precisamos conhecer bem para gostar delas quase de imediato.
Eu não conhecia onde vivia o Inácio, onde trabalhava ou outros factos que a maioria das pessoas sabe sobre qualquer um. Mas sabia que gostava dele, da sua presença serena, bem disposta na hora de rir, séria na hora de jogar.
Chorei-o na sua partida de uma forma inédita. Porque em geral não é a morte que me dói mas sim a ausência de quem amo. Com a partida do Inácio (e como a palavra partida pode aqui assumir um duplo sentido!) senti na hora a falta do que aí vinha, senti a perda do futuro. E isso assusta. Pelo menos a mim, assustou-me.
Dou graças por o ter conhecido, por termos partilhado um pouco do que cada um de nós é e foi em qualquer uma daquelas maravilhosas ocasiões em que nos encontrámos para lançar um dado e beber uma cerveja.
Numa destas noites não estava fácil sair para ir ter com os meus amigos. Tinha em cima o cansaço duma semana de árduo trabalho e duma viagem de três horas, o desejo de derreter mais uma horita com os meus filhos e os olhos suplicantes da minha esposa para que ficasse em casa.
“Mas o Inácio está cá!”, respondi eu ao apelo que ela não me fez. E fui.
E vou. Porque o Inácio está cá.
Setembro
Nas minhas infância e adolescência o dia 1 de setembro era o
dia mais feliz do ano, superando o Natal e o dia de aniversário. A 1 de setembro
começavam os 15 dias na praia!
Não íamos de férias, íamos
“15 dias para a Figueira”! Era essa a designação própria daquela primeira quinzena
de setembro passada na praia de Buarcos. Dias mágicos, vividos ao minuto, desde
o ir ao pão pela manhãzinha até às brincadeiras na areia já depois do Sol se
ter ido embora.
Ficávamos numa casa alugada, a mesma de sempre, ainda que me
recorde de curtas estadias em outras duas e desde o cheiro característico até
às sempre hospitaleiras formigas tudo tinha um encanto especial. Como se de um
conto de fadas se tratasse!
Carregávamos batatas e legumes do quintal, vinho e cervejas
em grade, malas, caixotes de papelão e até uma botija de gás. E toalhas e lençóis.
A chuva, que sempre aparecia, e os nevoeiros ajudavam a
decidir por uma manhã no mercado, entre o peixe para a caldeirada e uma pequena
camioneta de plástico. Ou por um passeio pelas muralhas até aos barcos e redes
que os pescadores cuidavam.
As noites, já frescas, levavam-nos a um passeio que, com
sorte, poderia passar pelos carros de choque ou pelo Caras Direitas onde
admirávamos os cartazes dos filmes e comprávamos uma medida de pevides que se
esgotava no regresso a casa.
O grupo era o mesmo todos os anos. Como se as famílias lá da
terra decidissem fazer turnos de praia entre julho e setembro. Com o passar dos
anos as crianças mais velhas do grupo saíam já sem os pais e nós os mais novos íamos
com eles como garantia de um regresso não tardio.
As noites iam esticando e o dinheirito curto tinha que dar
para uma ou duas fichas nos carrinhos de choque ou um bilhete para ver andar à
porrada o Bud Spencer e o Terence Hill, que parecia também irem a Buarcos todos
os setembros…
Quando no fim-de-semana vinham os primos arrumávamo-nos em divãs
ou colchões no chão para o sono que um passeio até à Figueira da Foz encurtava,
avenida marginal acima até à gelataria, a Emanha única, à cervejaria Sagres ou às
máquinas das ruas do casino.
Vivíamos em pleno, sem contar os dias, revolvendo areia,
enfrentando as ondas e batendo trunfos.
E no fim o verão não terminava ainda. As aulas nunca começavam
logo e perdurava ainda por uns dias nos meus ouvidos aquele pregão maravilhoso:
“É fruta ó chocolate”!
Valente
- “És um valente!”
Valente. Deixei de ouvir esta palavra, que a minha avó
associava, não à força, mas à determinação, à coragem de fazer coisas, de levar
a vida para a frente.
E é uma palavra que deveríamos recuperar, porque vivemos hoje tempos em que são precisas
pessoas valentes. Precisas e preciosas!
São aquelas pessoas que arriscam sair do seu telheiro para
caminhar à chuva, que põem amor no que fazem, seja trabalho ou divertimento,
que ousam aproximar-se de quem respeitam e que merecem a admiração daqueles de
quem se aproximam.
Conheço, mal, confesso, uma pessoa que todos os dias procura
ser melhor filha, melhor educadora, mais
amiga e mais mulher. Uma pessoa que ajuda mais do que imagina, que está mais
presente do que notará, que tem mais fé do que supõe!
É uma pessoa de hoje. Valente. Quantas pessoas conheçemos assim?
Ramos
Domingo de ramos é um domingo muito especial. É um daqueles domingos que começa no sábado! Em criança, o meu pai fazia-me umas cruzes fantásticas em cana, que revestia com alecrim e ramos de oliveira. Uma circunferência em salgueiro ou outro arbusto mais maleável ornava a cruz de tal forma que esta quase se esquecia.
Percebo hoje o extraordinário paralelismo dessa cruz, assim adivinhada sob todos aqueles ramos e folhas, com este domingo feliz em início de semana santa e com aquela entrada messiânica de Jesus em Jerusalém em vésperas de via-sacra.
Naquela minha meninice o domingo de ramos era tão especial porque ninguém tinha uma cruz como a minha ou a do meu irmão. À chegada ao adro da igreja era ver o que os outros meninos levavam e erguer com orgulho aquando da bênção dos ramos aquele maravilhoso trabalho do meu pai.
Tenho pena que se tenha perdido esta tradição. Entristece-me que a Igreja desbarate assim uma oportunidade de chegar de uma forma viva e jovial às crianças e perca a ocasião de juntar pais e filhos num alegre trabalho de casa catequético.
Este domingo de ramos fiz uma pequena cruz à Juliana. Com ramos de mimosa, que colhemos na mata no sábado, revestidos com alecrim que em boa hora a mãe decidiu transplantar para o nosso descuidado jardim.
Este domingo de ramos a Juliana ergueu a sua cruz enquanto eu, não menos orgulhoso, a elevava a ela nos meus ombros. E dou graças pela felicidade que é em dias como estes, unidos nesta fé viva, conseguir juntar os meus pais e os meus filhos. É sempre assim, quando a felicidade é maior do que a saudade!
Mão
Há mil imagens de pai e filho de mão dada. Há a ideia generalizada de segurança da criança quando o pai ou a mãe ali estão, mão na mão.
Desço a escada e o meu pensamento não está ali. Mora na preocupação pelo dia de amanhã. Mal ouço o tagarelar atrás de mim.
Mas, de repente há uma mãozita que se encosta na minha, que encontra ali a segurança necessária para descer confiadamente os degraus ao mesmo tempo que continua a mal ouvida dissertação.
A verdade é que qualquer um dos meus filhos já desce escadas sozinho vezes sem conta. Percebo então que foi a minha mão que se abriu e se insinuou naquela posição estendida ao longo do corpo, relaxada, um pouco virada para trás.
O meu pensamento volta ao presente, desperto pelo calor daquela pequena palma na minha mão e a inusitada segurança que isso me dá!