Caixa
A primeira sensação vem com a caixa. Não se trata ainda das cores ou dos desenhos, mas tão só da forma. Eu diria até que, num instante fugaz, a primeira coisa que retenho é o volume.Mesmo quando a colecção já se engorda com vários títulos, aquele momento em que pego numa caixa pela primeira vez é sempre especial. Sinto-lhe o peso, acaricio as formas e adio a retirada do celofane, como se a partir dali se perdesse um pouco da magia que me envolve sempre que tenho um jogo novinho em folha à minha frente.
Este sortilégio da caixa não é nenhuma novidade. Os bebés adoram abrir e fechar caixas, tirar e meter algo dentro delas! As crianças guardam as suas coisas em pequenas caixas e os adultos são amiúde atraídos por uma boa embalagem. E quem não recorda aquelas latas onde as nossas avós guardavam as preciosas bolachas que nos esperavam na alegria de cada visita? Não eram apenas recipientes com bolachas, eram repetidos instantes de encantamento!
As minhas mãos descem agora uma vez mais pela caixa colocada sobre o tampo da mesa quando os meus olhos se fixam finalmente na aparência. Confirmo ou apuro o que já havia dado conta nas vezes que espreitara o jogo na net. Ainda que agora as mãos também leiam e virem uma e outra vez tal volume, procurando detalhes nas laterais e verso.
Demoro-me nos desenhos, nas cores, no ambiente que se respira do quadro. Há casos em que me sinto transportar imediatamente para um outro lugar e um outro tempo e esse pensamento é de tal forma entusiasmante que seria capaz de logo ali dar nota máxima ao jogo que me espera no interior.
Na verdade, o que faço, de forma consciente ou sem disso dar conta, é uma vez mais retardar a abertura. Um pouco como acontece com cada primeiro golo de cerveja, sabemos que os seguintes jamais terão o mesmo sabor.
Daí em diante já não haverá expectativa sobre as cores ou a qualidade dos materiais, a disposição dos espaços de arrumação ou a arte do tabuleiro. Com um pouco de sorte, nas próximas vezes essa expectativa é substituída pela certeza de ir sempre redescobrir um jogo fantástico.
No final volto a encerrar a caixa, devagarinho, dando tempo ao ar para sair do seu interior e saboreando ainda a experiência da jogatana. Abro o armário e procuro o seu lugar na pilha, retiro os jogos de cima e recoloco-os depois. Os vários volumes encaixam-se (é o termo!) e formam uma torre de babel de formas, cores e títulos em vários idiomas. E ali, acomodada entre todas as outras, olho-a uma última vez, já transformada em baú dum novo tesouro.
Definitivamente, a riqueza um jogo de tabuleiro começa na caixa e muito antes dela ser aberta.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home